Compromisso social do discípulo de Jesus Cristo

Vivemos no terceiro milênio depois de Cristo num mundo em que prevalecem as desigualdades, a injustiça, a fome, as doenças, a violência e as guerras; em que os recursos naturais estão comprometidos, a extinção de espécies assusta os cientistas; a contaminação do ar, dos solos e das águas é um fato preocupante, o analfabetismo mantém-se, a mortalidade infantil é gritante.

“Há perto de 800 milhões de pessoas com fome.

Mais de mil milhões não têm água potável.

2,4 milhões não têm saneamento básico.

115 milhões de crianças não vão à escola.

A degradação dos solos afeta dois mil milhões de hectares.”

(Jornal Público, 9.7.2003)

Como cristãos como é que lemos estes números? Numa postura de escapismo, de indiferença, de condenação, de inevitabilidade; enterrando a cabeça na areia, encolhendo os ombros, adiantando teorias sociológicas, antropológicas, filosóficas, políticas, econômicas ou até teológicas?

A montanha dos problemas é demasiado grande para nós. Podemos sentir-nos muito pequenos, insignificantes, impotentes para conseguir debelar o que temos pela frente.

Alimentamos a esperança certa de que um dia destes teremos “novos céus e nova terra”, mas o que vamos fazer agora? De que forma é que o que fizermos está associado ao testemunho de sermos o que somos – filhos de Deus, o Senhor soberano da História?

Acredito firmemente que a Igreja está a fazer a diferença em todos os lugares por onde está disseminada. O mundo seria bem pior sem a Igreja! Ainda assim temos que ser mais como Jesus quer, acreditando que é isso que Deus quer que sejamos, e isso fará diferença para levar Cristo ao mundo e o mundo a Cristo.

O que é que há de errado com o mundo?

“Quando o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto “O que há de errado com o mundo?”, Chesterton respondeu mandando a carta mais curta e direta de todas:

Prezados Senhores

Eu.

Atenciosamente

G. K. Chesterton

(Alma Sobrevivente; Philip Yancey, Mundo Cristão, pp. 61)

A esperança que é Cristo está em nós – no nosso coração, na nossa cabeça, em nossas mãos, nos nossos pés, nos nossos olhos. Estará na nossa vontade, nos nossos bolsos e na nossa conta bancária?

Deus dá-nos para darmos, e dando multiplicamos!

Não é preciso apenas produzir mais riqueza, é preciso distribuir melhor aquela que já temos. A riqueza não é para ser acumulada, mas repartida! O discurso político que assenta em mais desenvolvimento para que venham a existir mais justiça e equidade social não corresponde à realidade do fato. Temos hoje mais riqueza disponível do que antes, desperdiçamos mais do que nunca, chegamos ao ponto de colocar em risco os recursos naturais disponíveis e as assimetrias sociais têm crescido de forma desavergonhada.

Há que deixar de olhar o dinheiro ou a capacidade de ganhá-lo com desconfiança, mas fomentar a generosidade em vez da avareza, do desperdício, das inutilidades e dos excessos.

RESPONSABILIDADE PESSOAL

A exigência do Evangelho na essência e na prática de Jesus e da Igreja neotestamentária é ser livre do sistema instituído em que impera o mal, a desobediência e o pecado.

O sistema pode ser egoísta, materialista, hedonista, naturalista, consumista, esbanjador, segregador, racista, discriminatório, xenófobo, produtor de exclusão, destruidor do ambiente, corrupto, injusto, economicamente assimétrico e desigual, indiferente, apático, insensível, etc. O filho de Deus é chamado a viver livre desse sistema.

Como discípulos de Jesus somos chamados a viver de uma forma diferente e, na medida em que vivemos de uma forma diferente, a diferença será cada vez mais visível e sensível. Ser bondoso, generoso, servo, próximo, solidário, pacificador, verdadeiro, honesto, justo.

Se a maioria é materialista e naturalista, ateia ou agnóstica, religiosa ou supersticiosa, somos chamados a viver segundo a nova natureza que nos foi conferida no novo nascimento como pessoas espirituais, como filhos de Deus, que andam no espírito.

Se os que nos rodeiam vivem de modo egoísta somos chamados a viver de modo altruísta.

Se a injustiça prevalece somos chamados a viver de modo justo e piedoso.

Se a imoralidade e a amoralidade grassam somos chamados a viver em santidade como santos, santificados em Jesus Cristo pelo Espírito Santo.

Se a violência física, verbal, emocional e espiritual grassa à nossa volta somos chamados a viver como pacificadores, dando a outra face, caminhando a segundo milha, perdoando setenta vezes sete, não retribuindo mal por mal, pagando o mal com o bem, promovendo a reconciliação e o entendimento.

Se a mentira, o politicamente correto e a hipocrisia campeiam somos chamados a viver de forma íntegra, segundo a verdade, denunciando pela nossa compostura mais do que pelas palavras a injustiça.

A desculpabilização do que os outros fazem, do que os outros não dão, do que os outros gastam, não serve de desculpa para o que nós mesmos não fazemos, não damos e gastamos.

Jesus Cristo falou muito acerca do egoísmo e do materialismo avarento que amarra as estruturas humanas e os seus relacionamentos no contexto religioso. A história conhecida como do “Bom Samaritano” é um bom exemplo dessa abordagem, denúncia e chamada de atenção. Aqui deixo o relato completo dessa ilustração que ainda hoje precisa ser tomada em consideração por todos nós, se queremos fazer alguma diferença no mundo em que vivemos.

E eis que certo homem, intérprete da lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus em provas, e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Então Jesus lhe perguntou: Que está escrito na lei? Como interpretas?

A isto ele respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Então Jesus lhe disse: Respondeste corretamente, faz isto, e viverás.

Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?

Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó, e veio a cair nas mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se deixando-o semimorto.

Casualmente descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo.

Semelhantemente um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo.

Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar.

Qual destes te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?

Respondeu-lhe o intérprete da lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então lhe disse: Vai, e procede tu de igual modo. (Evangelho de Lucas 10:25-37)

A parábola ensina-nos que a questão não é quem é o meu próximo, mas de quem é que eu sou próximo, ou seja, de quem é que eu me aproximo. Sou eu que torno os outros meus próximos quando deles me aproximo.

Nós estamos próximos de Deus porque Ele venceu a distância que nos separa e que nós nunca podíamos ultrapassar. Ele veio ao nosso encontro. Nós O conhecemos porque Ele se seu a conhecer.

Jesus usou um samaritano, alguém absolutamente desconsiderado no seu tempo, para dar uma lição a um religioso, intérprete da lei, a propósito do maior de todos os mandamentos – o amor.

O sistema é sempre uma mistura de político, religioso, econômico, étnico, racial, cultural, mediático, etc.

O nosso molde é Jesus Cristo.

Fomos libertos e somos libertos para viver como Ele viveu.

É possível viver assim, Ele mesmo nos garantiu e deu prova em Si mesmo.

A realidade da vida e da ética cristã está na prática, não no discurso apenas. Vou ser apreciado pelo que fiz e não pelo que falei ou escrevi.

Nascemos de novo para uma nova vida.

Sempre salvos pela graça mediante a fé, nunca pelas obras, mas para as boas obras nas quais devemos andar.

Se elas não existirem nunca houve novo nascimento, sem cair em perfeccionismos legalistas, embora sempre perseguindo a perfeição e a excelência e nunca contemporizando com a mediocridade.